ESG não é checklist, mas sim questão de sobrevivência para as empresas

Especialistas que participaram de evento dia 24/11, no Secovi-SP, deixaram vários recados sobre a importância de as corporações desenvolverem agenda positiva e ingressarem nessa jornada

No dia 24/11, em formato híbrido, aconteceu o Diálogo ESG do Setor Imobiliário, evento de uma série sobre o tema que o Secovi-SP tem realizado durante o ano. Nesta edição, a realização foi em parceria com a Aelo (Associação das Empresas de Loteamento de Desenvolvimento do Estado de São Paulo) e reuniu palestrantes de alto nível, que durante toda uma manhã apresentaram os aspectos positivos de as empresas se engajarem nessa jornada.

Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP, e grande entusiasta do tema, ressaltou que o setor da construção civil causa impacto significativo no meio ambiente, uma das razões para o evento se propor a apresentar a visão de profissionais renomados na criação da cultura ESG no mundo corporativo. “Há a necessidade de as empresas sobreviverem e serem relevantes para a sociedade e o mundo. É fundamental fazer o bem, bem-feito, e iniciar por aquilo que faz bem para a empresa”, destacou.

O advogado e vice-presidente da Aelo, Luis Paulo Germanos, falou que a despeito de inúmeras interferências, o setor formal de desenvolvimento urbano e incorporação está bastante habilitado nas práticas ESG. “Esse evento vem em um momento oportuno de necessidade de aprofundar conhecimento e identificar quais agentes intangíveis têm mais relevância no universo da construção civil.”

Valor para o negócio – Com mais de 35 anos de experiência e atuação no tema ESG, João Carlos Redondo, diretor da MR Consultoria e coordenador da Comissão de Estudos para a Sustentabilidade do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), participou do evento remotamente e esclareceu, logo no início, que as práticas ESG não fazem parte de uma onda ou modismo. “Só vejo aumentar as cobranças e complexidades para o setor. E ainda há líderes que acham que essa agenda compete com o negócio. Não é isso. Práticas ambientais antes aceitas, hoje podem ser consideradas crimes ambientais. Práticas de informalidade e preconceitos não são mais socialmente aceitas. Contudo, muitas organizações consideram que internamente resolveram essas questões e acabam comunicando erroneamente”, disse.

De acordo com ele, primeiro é necessário entender onde a organização empresarial está enquadrada nas práticas ESG, compreender os propósitos da empresa, que devem ir além de preço e qualidade. “Agenda ESG não em checklist e cada empresa tem de achar o seu caminho”, enfatizou.

Contudo, não se deve desprezar aprendizados adquiridos anteriormente, porque ao se adotar uma agenda ESG, o que vai diferenciar uma empresa da outra é a forma como cada uma lida com seus dilemas e equaciona questões ambientais e sociais. “A velocidade do avanço da agenda depende da aceitação da liderança. Assumir compromisso de longo prazo proporciona menos risco, gera aumento de formalização, criação de processos para retenção de talentos, e minimiza pequenos acidentes”, elencou o especialista.

Jovens de 25 a 30 anos buscam propósito de vida nas empresas, conforme Redondo, e uma agenda ESG – que envolve a adoção de cultura, o desenvolvimento de consciência do papel social e organização corporativa – é capaz de manter esse novo profissional em seu quadro de colaboradores. “Externalizar custos para obter resultados imediatos causa muito impacto social”, disse.

ESG é um desafio ético para as empresas, mas que preserva o valor da organização e a sua marca. Porém, é uma prática para empresas dispostas a olhar internamente e reconhecer seus preconceitos, buscar equilíbrio e boa governança para valorizar a empresa, de acordo com Redondo, que elencou alguns pontos de atenção a serem observados. Primeiro, é necessário entender o momento da organização dentro da agenda ESG, ou seja, descobrir o que a empresa já tem desenvolvido em termos de boas práticas, avaliar se a remuneração está baseada nos critérios ESG, olhar a estrutura organizacional, os recursos, se há estrutura para continuidade ou se a intenção é criar uma agenda de conveniência, mantendo baixa formalidade dos processos.

Humanidades – O pilar social da estrutura ESG foi tratado por Rachel Carneiro, que atua há 20 anos na área social, materializando ideias. Ela mostrou para os participantes do evento como tem evoluído a agenda social nas empresas e no Brasil, apresentando ações afirmativas desenvolvidas desde a década de 1980, com criação de legislações de incentivo cultural e pautas de diversidade.

Para desenvolver ações voltadas às pessoas, a empresa deve antes refletir acerca “de quem” se quer falar. “Nós falamos de pessoas. São elas que fazem o negócio crescer. E deve-se olhar para todas as pessoas, os stakeholders, a população do entorno da sua empresa e de seu empreendimento, a sociedade. Para criar uma agenda social estratégica, é preciso entender o seu papel na escala ‘S’, seja por meio da obrigatoriedade ou da ação voluntária. Ambas as formas vão gerar valor lá na frente”, ressaltou Rachel.

Responsabilidade social é fundamental para o crescimento do negócio, conforme explicado pela especialista. “Não se trata de imagem ou reputação, mas de investimento. O papel da empresa é gerar valor econômico, mas ela também pode gerar valor social, valor compartilhado”, disse.

Para se criar uma agenda positiva, o primeiro passo é entender o momento da empresa para traçar um diagnóstico social, com estudo de riscos e, se for necessário, criação de área específica para a gestão do plano estratégico social, com consequente redução de orçamento. “A tomada de decisão tem de ser consciente. É preciso definir o propósito social da empresa e não começar definindo o “o quê” ou o “como”, mas sim o “porquê”. Entender o porquê da ação social, chega-se à forma de sua realização.”

Os resultados dessa agenda social devem ser acompanhados por um núcleo de gestão, conforme explicação de Rachel. “Isso traz para perto parceiros. Cultura significa que todos os representantes da companhia falam a mesma língua, tem plano estratégico e bem definido aquilo que faz sentido para a empresa”, resumiu.

Como pontos de reflexão, Rachel destacou a importância de a empresa pensar sobre a necessidade real de se criar um instituto, que significa um novo CNPJ.

Primeiros passos – Maria Eugênia Buosi, economista e mestre em finanças com 15 anos de atuação na área de sustentabilidade em grandes instituições financeiras, encerrou o evento com a palestra “ESG na prática: Inspiração e transpiração”.

Maria Eugênia destacou que para iniciar uma jornada ESG são necessários pequenos passos em direção à cultura da empresa. “A empresa faz parte do problema ou da solução? O que ela faz e como faz? Ela gere e minimiza impactos? Hoje, vivemos um dos maiores desafios sociais e ambientais com a pandemia de covid-19, que surgiu de interferências ambientais”, lembrou.

Ela destacou que a construção civil é um setor imprescindível e que para ele o “G” tem de ser a praxe da gestão corporativa. “Empresas mais resilientes são mais longevas e prósperas, comprovadamente.”

E são essas empresas que têm de atender uma nova geração de pessoas que chegam ao mercado consumidor. “Os jovens mudaram seus valores e abrem mão do carro para usar a bicicleta. Qual será o impacto desse novo comportamento no mercado imobiliário, na indústria de aço e combustível? Já se questionaram sobre isso?”, perguntou Maria Eugênia.

Um dos desafios atuais é como as empresas vão se adaptar frente a grandes mudanças culturais e de padrão de consumo. “Isso tudo também vai impactar os custos das companhias, porque os bancos vão passar a analisar os riscos ambientais, sociais e climáticos no momento da concessão de crédito. Os riscos sociais estão incluídos nesta pauta e vão fazer parte da premissa dos negócios, assim como a agenda do constrangimento de quem não estiver inserido no universo do compliance”, disse.

A agenda ESG torna as externalidades positivas, de acordo com ela. “É desconfortável falar de ESG, porque é difícil ultrapassar as barreiras culturais e os preconceitos. Mas é sempre necessário lembrar que as empresas dependem dos stakeholders e, sem governança, o ESG não se sustenta”, ressaltou.

No mundo, a construção civil é responsável por 39% da emissão de gás de efeito estufa, por 33% do consumo de energia e por 40% do consumo de água, de acordo com dados apresentados na palestra. “Esses percentuais devem ser reduzidos. ESG pode ser risco ou oportunidade. E o maior risco é não fazer nada e abrir precedentes para os concorrentes avançarem em pautas positivas”, sinalizou.

Ela explicou, ainda, que a reputação de uma marca é consequência de uma gestão bem organizada. “Isso leva tempo. Entender onde está a sua empresa nessa jornada é a primeira reflexão a ser feita. Depois, deve-se definir temas materiais e manter o foco nisso, para depois promover engajamento, que é a cultura, e estabelecer métricas, indicadores e metas corporativas para serem executadas, monitoradas e reportadas. No final, é chegado o momento de divulgar e contar boas histórias”, concluiu Maria Eugênia.

O evento teve patrocínio de Atlas Schindler, Cashme, Comgas, Gerdau e Grupo Souza Lima, e apoio institucional de Abrainc (Associação Brasileira das Incorporadoras), Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers), Abrasip (Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais), Adit Brasil, CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), CTE (Centro de Tecnologia de Edificações), IBI Brasil (Instituto de Impermeabilização), Fecomercio SP, Pro Active Certificação e Sustentabilidade e SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção de São Paulo).

Autor: Assessoria de Comunicação – Secovi-SP 

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